Encontrei no Genizah... e chorei.

Texto: Hermes C. Fernandes

Muita coisa tem sido dita nestes últimos dias acerca do cataclismo que abateu o Haiti. A ONU afima ser a maior catástrofe de sua história. Será que se esqueceram da tsunami? E de tantos outros terremotos que têm acometido o mundo nos últimos anos? O que torna a tragédia do Haiti mais importante em termos de repercussão é sua proximidade com o resto do Ocidente. A tsunami aconteceu lá do outro lado do mundo. Mas o Haiti parece um aviso de que coisas ruins também acontecem aqui no nosso quintal. Miami está logo ali!

Como cristãos, qual deveria ser nossa reação diante de uma tragédia desta magnitude?

Alguns preferem buscar explicações teológicas. Alguns crêem que tenha sido juízo de Deus, por causa de um pacto feito entre aquela nação e o diabo, quando lutava por sua independência da França no século VIII. Outros atribuem ao próprio diabo, como se este tivesse poder sobre as forças naturais. Há também a turma do Open Theism, que aproveita a situação para reafirmar e propagar sua crença de que Deus não interfere na história, e nem ao menos conheçe o seu desfecho. Tem também os que aproveitam para linkar o acontecimento à proximidade da volta de Jesus, catalogando-o como sinal dos tempos.

Enquanto os teólogos de plantão discutem, cristãos comuns arregaçam as mangas no afã de minimizar o sofrimento das vítimas.
O livro de Atos registra um terremoto ocorrido na cidade de Filipos, onde Paulo e Silas estavam encerrados na prisão. O abalo foi de tal magnitude que rompeu as grades, deixando todos os presos potencialmente livres. O carcereiro, desesperado, quis suicidar-se, mas foi impedido por Paulo, que garantiu-lhe que nenhum dos presos fugiria. Para a surpresa deles, o suicida perguntou-lhes: Que farei para ser salvo?

Ora, Paulo poderia ter entendido que aquele terremoto era juízo de Deus sobre os que o haviam preso injustamente. Ou poderia acreditar que tudo tinha acontecido para que ele fosse livre daqueles grilhões. Porém, Paulo não entendia os acontecimento partindo de seu próprio umbigo. É claro que ele não acreditava em acidentes. Havia um propósito naquilo tudo.

Em vez de aproveitar para fugir, Paulo se volta para aquele homem desesperado, e lhe diz: Crê no Senhor Jesus Cristo e será salvo tu e a tua casa.

Que bom seria se a igreja contemporânea deixasse de discutir a razão das tragédias naturais, e aproveitasse o ensejo para levar uma palavra de conforto e salvação às vítimas. E não só palavras, mas também ações.

Não nos compete julgar, nem atribuir culpa a quem quer que seja. Nossa única atribuição é revelar a face amorosa do nosso Deus, que Se importa com a dor de suas criaturas.

Imagine se Paulo tivesse a postura de muitos cristãos de hoje em dia. Ele certamente deixaria que o carcereiro cumprisse seu intento, e ainda chegaria na igreja dando testemunho da vitória. Que vergonha! A mensagem pregada em nossos púlpitos tem produzido gente assim, que em vez de encarar a realidade, prefere fugir dela, com explicações mirabolantes que apaziguem suas consciências, em vez de aguçá-las em favor do seu semelhante.

Deus está dispensando advogados! Mas também não Se importa com Seus detratores.

Voltemos-nos para a realidade, e trabalhemos para transformá-la.

Ironicamente, o mesmo carcereiro que lhe fizera as feridas nas costas, levou-o para sua casa e as tratou. Daquele terremoto nasceu a igreja para a qual Paulo destinou uma de suas mais brilhantes epístolas: Aos Filipenses.

Dos escombros deste terremoto no Haiti surja uma igreja vibrante, cheia de vida e desejosa de mudar o mundo. Dos escombros de nossas certezas teológicas, possa emergir uma igreja voltada para fora em busca de soluções, em vez de explicações.


Não encontrei outro texto tão sensível e impressionante como este. O Blog do Genizah já me proporcionou momentos de rizadas e alegria, mas, desta vez, me fizeram chorar e refletir a respeito de mutia coisas. Parabéns, caras, vocês são demais.
GG

1 comentários:

Ira 28 de janeiro de 2010 09:39  

Que benção! Há uns dias contei para um irmão da igreja sobre o que disse o Pat Robertson, e ele para minha surpresa concordou plenamente com o tal e me disse: "Alguem tem que falar a verdade Ira!". Tal reação me deixou perplexa o quanto nossos crentes estão banalizando o amor de Cristo, se achando os "super-perfeitos" e ainda no direito de julgar toda e qualquer ação e reação a sua volta. Vemos tantos e tantos pregando sobre missões, sobre libertação..mas na verdade o bonito é só no púlpito, meras teorias sem ação. Isso me envergonha e me faz cada vez mais não querer ser como eles, mas me espelhar somente nAquele que me amou e me ama, Jesus!

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