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A Reunião

Um conto de Gustavo Guilherme

A cúpula de monges e noviços reunia-se uma vez a cada década – geralmente para tratar assuntos concernentes ao cotidiano intocável do monastério.

No entanto, naquela tarde fatídica de um outono tenebroso, as nuvens anunciavam que uma tempestade estava por vir. Enquanto aos relâmpagos seria dada a hedionda missão de atormentar os sonhos dos homens, os trovões se encarregariam de cegar-lhes a consciência.

Por causa de uma suspeita de violação dos votos outrora feitos, os monges, assustados, reuniram-se em assembléia extraordinária – alguém dentre eles cometera pecado mortal, imperdoável e grotesco: o seu deus iracundo despertara.

Apressados, monges e noviços sentaram-se aflitos ao redor da mesa sacerdotal, no átrio do templo.

– Apressemo-nos, irmãos! – disse um deles – Provavelmente não temos muito tempo. É necessário que se confesse o “crime”, e que tal agressor da Lei Suprema seja imediatamente punido, para que a ira não nos sobrevenha.

Burburinhos inoportunos fizeram-se ouvir durante alguns instantes, até que um trovão gritou imponente. A tempestade se aproximava.

– Irmãos, não estamos aqui para acusar uns aos outros. Afinal, isso nos rebaixaria da posição santa na qual nos encontramos. E também não estamos aqui para digladiar nossas palavras umas contra as outras, mas para solucionarmos um problema mortal. Quem suscitou a ira dos céus?

O silêncio se fez presente e deixou-se ouvir por alguns instantes.

Nuvens densas escureciam o mundo.

– Fui eu, mestre. – disse o mais jovem, erguendo as mãos trêmulas e baixando a cabeça, arrependido.

O Sacerdote principal, imponente, ergueu-se rapidamente:

– E qual foi o seu delito, meu jovem?

O rapaz encolheu-se antes de responder, aflito:

– Mestre, enquanto debatia princípios de nossa fé com um de meus irmãos, em uma conversa fervorosa sobre alguma coisa que sequer consigo me recordar, embebi meu coração em fúria e, em meus pensamentos impuros, planejei matá-lo.

O Assassino

Um conto de Gustavo Guilherme


Era noite de quinta-feira. 

Cheguei em casa cansado, com os pés doloridos e a garganta inflamada. Culpa da longa caminhada entre o escritório e minha casa, e do frio que fez durante todo aquele dia. Exausto, me joguei na cama sem sequer tirar os sapatos. Dormi.

No sonho que tive, um homem caminhava na escuridão da noite. Era eu. Atrás de mim, seguindo os meus passos em silêncio, outro homem - mal vestido e com cabelos esquisitos - caminhava cauteloso. A noite de meu sonho, chuvosa e sombria, me fazia estremecer.

Quando meus pés desviaram-se do caminho, por estar desconfiado do rapaz que me perseguia, comecei a correr por uma rua mal iluminada. O homem veio atrás, correndo exatamente no mesmo ritmo que eu... parecíamos a sombra projetada um do outro, tão semelhantes eram os passos, o balançar do corpo e a respiração.

Por descuido, acabei tropeçando em um mendigo que ali dormia. Meus joelhos tocaram o chão com violência, e o impacto os tornou inúteis - eu havia quebrado a perna. No mesmo instante, depois de sentir a dor em meus ossos, senti também meu rosto espatifando-se numa poça d'água. Virei-me depressa para não me afogar e, gritando, procurei o tal mendigo em quem tropecei. Mas ele não estava mais lá. Sumira.

O homem que me perseguia, no entanto, se aproximava de meu corpo estirado no chão imundo da ruela escura. Passos demorados, respiração ofegante e mãos nos bolsos. Eu estremeci de medo.

O homem chegou perto, mas seu rosto se escondeu nas sombras da noite. Agora eu podia vê-lo de pé, diante de mim, assim como podia ver suas mãos saindo dos bolsos vagarosamente... do bolso esquerdo, saiu uma mão grande, com dedos finos e uma cicatriz. Aquela mão estava vazia. Em seguida, a mão direita, que parecia segurar alguma coisa, foi aparecendo aos poucos... lentamente, pude ver que aquela mão segurava um revolver.

O homem destravou a arma, deu um passo a frente a atirou três vezes. Os tiros me acertaram no peito, e eu, naquele sonho, morri. 

Pouco antes de despertar, porém, recordei-me que, antes de levar os tiros, uma luz vinda de algum lugar iluminou a face de meu algoz. O homem, descabelado e mal vestido, sorria. Seus olhos esbugalhados, porém, pareciam estar com medo de alguma coisa. O homem, destro e loiro, tinha uma lágrima presa nos olhos. 

O homem, assassino, era eu.



Conto escrito após meditar sobre algumas considerações do escritor Brennan Manning a respeito do "impostor que habita dentro de cada um de nós".

by GG

Contrastes

Virando a página, 
dá pra ver todas as alegrias 
saídas do romance 
mais lento que o vento 
que habita em mim, 

enquanto lá fora, onde tudo é mais real, 
as páginas vestem o luto 
do mundo que vai morrer.


Poesia escrita por Gustavo Guilherme em junho de 2005.

Mais Perto Quero Estar

Dois pastores evangélicos e um motociclista morreram num acidente envolvendo sete veículos, na manhã de ontem, na Rodovia do Contorno, trecho da BR 101 que liga Serra a Cariacica.

Os religiosos pertenciam à Igreja Assembleia de Deus e haviam saído de Alegre, município da Região Sul do Estado, rumo a uma convenção estadual da igreja em Nova Carapina II, na Serra.

Os veículos - cinco caminhões, uma moto e um automóvel Del Rey - bateram um atrás do outro. O engavetamento aconteceu às 8h15, no quilômetro 277, na Serra. Os pastores estavam no carro.

Tudo começou quando um caminhão freou por causa do intenso fluxo de carros no sentido Cariacica - Serra. Os veículos que vinham atrás dele frearam também, mas o último caminhão - de uma empresa de cerveja - não conseguiu parar a tempo. Com isso, os veículos que estavam à frente foram imprensados uns contra os outros.

Os pastores José Valadão de Souza e Nelson Palmeira dos Santos e o motociclista Jonas Pereira da Silva, 52 anos, morreram no local. Dois outros pastores, que também estavam no Del Rey, sobreviveram, e o motorista de um dos caminhões sofreu arranhões nas pernas. Nenhum dos outros caminhoneiros ficou ferido.

O proprietário e condutor do Del Rey é o pastor Dimas Cypriano, 61 anos, do município de Alegre. Ele saiu ileso do acidente e teve ajuda do motorista José Carlos Roberto, carona de um dos caminhões, para sair do veículo.

Seu amigo de infância, o pastor Benedito Bispo, 72, ficou preso às ferragens. Socorristas do Serviço Médico de Atendimento de Urgência (Samu) e bombeiros fizeram o resgate dele. O pastor teve politraumatismo e foi levado para o Hospital Dório Silva, na Serra.

A mulher de Benedito chegou a ver o marido sendo socorrido e teve que ser amparada por um familiar. Ela também seguia para a convenção num outro veículo. A rodovia ficou interditada durante vários momentos da manhã de ontem nos dois sentidos. O trecho só foi totalmente liberado no início da tarde.

O pastor Dimas Cypriano, que sobreviveu ileso ao acidente na manhã de ontem, no Contorno, contou que usava cinto de segurança e que ficou preso ao tentar sair. Ele dirigia o Del Rey e disse que precisou de ajuda para sair do carro. Mas depois continuou no local, acompanhando os trabalhos de resgate do colega, Benedito Bispo. Nas mãos, levava uma Bíblia que ficou suja de sangue. Mas isso não impediu que o pastor orasse durante o socorro.

O mais comovente do triste episódio, foi o relato dado por 2 pastores sobreviventes e pelos bombeiros que tentavam tirar os pastores ainda com vida que estavam presos nas ferragens.

As testemunha citadas acima, contam que os pastores Nelson Palmeiras e João Valadão, ainda com vida e presos nas ferragens, em meio a um mar de sangue que os envolvia, começaram a cantar o Hino 187 da harpa cristã:

Mais perto quero estar meu Deus de ti!
Ainda que seja a dor que me una a ti,
Sempre hei de suplicar
Mais perto
Quero estar meu Deus de ti!

Andando triste
Aqui na solidão
Paz e descanso
A mim teus braços dão
Nas trevas vou sonhar
Mais perto
Quero estar meu Deus de ti!

Minh'alma cantará a ti Senhor!
E em Betel alçará padrão de
Amor,
Eu sempre hei de rogar
Mais perto
Quero estar meu Deus de ti!

E quando Cristo,
Enfim, me vier chamar,
Nos céus, com serafins irei
Morar
Então me alegrarei
Perto de ti, meu Rei, meu Rei,
Meu Deus de ti!

Aos poucos suas vozes foram silenciando-se para sempre.

As lágrimas tomaram conta dos bombeiros, acostumados a resgatar pessoas em acidentes graves, porem jamais viram alguém morrer cantando um hino, como foi o caso dos pastores Nelson Palmeiras e João Valadão.

Fonte: Genizah Virtual

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